Caldo galego
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| Foto: https://orgullogalego.gal |
Indo
pelo Minho acima, pelo rio ou pela estrada, vamos ter à Galiza. Não é uma terra
estranha para os Minhotos, antes pelo contrário. São dois territórios unidos
pela cultura, pela história, pela língua e pela geografia. Afinal, só não somos
galegos por causa de uma certa elite portucalense que se reuniu em volta de D.
Afonso Henriques. Por vontade de sua mãe, D. Teresa, o futuro reino de Portugal
incluiria parte da Galiza. Sonhos que não se concretizaram e que levaram os
dois territórios por caminhos diferentes…
Mas
não é isso que agora me traz aqui. Venho por causa do caldo galego, quer dizer, pela cultura gastronómica que nos une. A
Galiza está um pouco mais a Norte e o factor climático traz sempre alguns
condicionalismos em termos de produção agrícola. Todavia, no essencial, somos o
mesmo povo! O mesmo mar, a mesma terra, a mesma alegria na partilha, no
convívio e no trabalho. O polvo, o bacalhau, as batatas, o milho, os ovos, a
carne de porco, as couves, ou “versas”, termo que também usamos, estão todos os
dias nas nossas mesas. É certo que os galegos valorizaram mais a empanada e a tortilha.
Mas nós também temos as nossas bolas de carne e as omeletes ou pastelões, como
alguns lhe chamam no Minho. E claro, o caldo, esse alimento essencial de quase
toda a população, que os galegos e os minhotos fazem quase da mesma maneira.
Confesso aqui que é das comidas que mais gosto quando venho à Galiza e, por estes dias, deliciei-me com este icónico cozinhado. E, como não podia deixar de ser, vim para casa munida com um saco de feijões, um dos seus principais ingredientes. Feijões (faba de Lourenzá), diga-se, certificados com a denominação geográfica protegida e que, por serem já raros na região, me custaram a módica quantia de 16 € (1 quilo). São estas a dinâmicas económicas/agrícolas que agora regem o nosso quotidiano. Uma forma de ajudar a sustentabilidade agrícola regional não deixando desaparecer certas variedades.
Mas
vamos ao caldo ou aos caldos Minhoto e Galego. O caldo galego, aquele que se
come nos restaurantes, é feito com batatas e os ditos feijões (brancos), para
dar alvura ao cozinhado, e de textura suave. Tudo cozido com um pouco de carne
de porco, de preferência curada no sal: toucinho ou lacão, termos usados nas
duas regiões. Depois de tudo cozido juntam-se as nabiças, ou as “versas” (couve-galega),
ou repolho. Este usa-se mais no tempo do estio quando umas não existem e as
galegas são duras. Contudo, por estas terras nortenhas a rama do nabo, ou nabiça,
acabou por ser a preferida e confesso que nunca comi caldo galego com as outras
hortaliças, nem no pico do Verão. Também, convenhamos que não deve ser difícil
para os galegos ter uma horta sempre fresca, onde o nabo cresce, de Verão e de
Inverno, sem grandes problemas de falta de água.
E
agora o nosso caldo, bem minhoto, feito com batatas, um pouco de feijão, ou
não, e a couve-galega. Para tempero também o unto de porco ou a banha ou, como
na Galiza, um pouco de toucinho ou lacão. Um caldo que agora chamamos de caldo verde, ou simplesmente caurdo, mas que no passado se chamava
caldo de unto. O célebre caldo de unto do
Minho já anotado por Francisco Borges Henriques no século XVIII.
O mais
curioso de tudo isto é que nós usamos a chamada couve-galega - não será por
acaso que ela assim se denomina - e os galegos preferem a nabiça, que nós
também usamos na chamada sopa de nabos, que não é muito diferente, e nos
esparregados.
Mas,
seja com couves ou com nabos, é com estes cozinhados simples e ancestrais, sem
grande requinte, que as regiões procuram desbravar caminhos de sustentabilidade
e atrair turistas.
Mas haverá comida mais
aconchegante do que um bom caldo?!


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