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Bolo de noz

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  Hoje venho falar de uma receita. Foi oferecida por uma pessoa muito especial. Quando surgiu não sei, mas sei que tem atrás de si uma longa história  que envolve a plantação de nogueiras nos quintais minhotos. Quem viajar pelo Minho e observar a paisagem agrícola rapidamente percebe que a nogueira é uma presença constante. Numa região de povoamento disperso as árvores de fruto estão, desde o tempo dos romanos, próximas das casas, à volta delas, nos seus rossios e quintais. São as figueiras, as laranjeiras, os pessegueiros, as macieiras e pereiras, as ameixieiras, e naturalmente as nogueiras. Introduzidas na Península Ibérica pelos romanos, estas árvores, de grande porte, destacam-se na paisagem imponentes e altivas. Nos seus ramos se aninham os pássaros, à sua sombra se fazem longas conversas em tardes e noites de Verão, mas, acima de tudo, o seu fruto constituiu, em tempos idos, um importante recurso energético e nutricional garantindo o sustento das populações ao longo ...

Papas de sarrabulho… com cominhos e limão!

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Ramo de limoeiro a anunciar que há papas de sarrabulho! Restaurante O Alexandre, Campo das Hortas, Braga     A experiência de comer  este prato Comer um bom prato de papas de serrabulho, acompanhadas com rojões, tripas e farinhotes, é uma verdadeira e única experiência gastronómica, nada comparável a outras comidas, também com algumas características peculiares. É entrar numa outra realidade, penetrar no Minho profundo, nas entranhas da terra e sentir a capacidade que os minhotos desenvolveram ao longo de séculos, transformando alimentos secundários, meros desperdícios, numa iguaria estranha, complexa, rústica e, atrevo-me a dizer, deliciosa.     É comida antiga encontrando-se referida nas fontes documentais dos bracarenses pelos menos desde o século XVI. Mas virá, com toda a certeza, de muito mais atrás. Chama-se sarrabulho, mas também pode chamar-se verde, bazulaque, sarapatel, mondongo… receitas onde o sangue e as vísceras se fundem dando origem a sabo...

O cidrão na mesa de Natal

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  Cidrão em Pico de Regalados, 2011                     Não cresci com cidrão. Só há poucos anos sei o que é. Descobri devagarinho, depois de ler várias vezes, em documentos do século XVII e XVIII, a referência à compra de cidrão cristalizado e de um doce denominado cidrada (feito com cidrão). A estranheza da denominação levou-me a fazer perguntas, aqui e ali, e a perceber que se trata de um citrino, que dá uns frutos amarelos, parecidos com o limão, mas muito maiores e muito mais aromáticos. A árvore que o produz chama-se cidreira e o fruto também se pode chamar cidra. Nada de confusões com a sidra, ou seja, uma variedade de maçã que depois de fermentada dá uma bebida. Procurei esta árvore no país e encontrei-a na Madeira e no Minho. Sim, no Minho ainda há cidreiras que produzem cidrões, ou cidras, que são vendidos para as empresas de fruta cristalizada. Fruta esta que se comercializa especialmente na época natalícia, s...

Bolinhos de jerimú

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As iguarias de Natal do Entre Douro e Minho O Natal tem as suas próprias iguarias que foram mudando ao longo dos séculos. Iguarias que, no passado não muito distante, se diferenciavam pela classe social. Nas mesas ricas estavam doces onde primavam os ovos, o açúcar, a amêndoa e o leite, enquanto os mais pobres deitavam mãos a recursos mais baratos e mais quotidianos como o pão, o mel, o vinho, a abóbora, algum fruto seco, que houvesse por casa, e pouco mais. Os ovos existiam mas não eram assim tão abundantes, porque se vendiam na feira para fazer uns trocos, necessários para os gastos quotidianos; o leite era mais abundante em terras do Minho mas, mesmo assim, vendia-se sempre que se podia; o açúcar era muito caro, consumindo-se doseado em dias especiais e quando a doença batia à porta. No Minho esta escassez é ainda hoje muito visível num receituário onde a criatividade saltou para a mesa em forma de verdadeiras iguarias. As rabanadas de vinho tinto, em substituição de leite; a aletri...

A rosca do Minho

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  Hoje, Domingo, logo pela manhã, saí à rua e cruzei-me com um homem que vinha da padaria com uma rosca debaixo do braço. Em Braga esta é uma realidade domingueira. Todos os Domingos as padarias da cidade só cozem e vendem rosca. E quem diz em Braga, diz em muitos concelhos minhotos, onde a produção de rosca, ou regueifa, assim designada junto aos rios Ave, Sousa e Tâmega, está presente no quotidiano da população desde os tempos medievos. É claro que são excepção as padarias dos supermercados, onde outros pães se vendem e a rosca nem sequer está presente, mas nas padarias impera o pão tradicional. Quem não é do Minho, como eu, ainda se surpreende com esta tradição alimentar. Nos primeiros tempos arriscava-me a perguntar se não havia outro pão, mas cedo percebi que por aqui é este que fala mais alto.  O que é uma rosca? A rosca é um pão branco feito da flor da farinha de trigo, bem peneirada, que se faz em forma arredondada ou, como nos dizia Raphael Bluteau, no século X...

Vai um copo de... vinho verde?

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Caneca e malga de vinho verde.   São João de Braga, 2024 Estamos a terminar o tempos das vindimas! Tenho ainda na memória o cheiro a mosto e a vinho novo, que manava dos lagares quando percorria as ruas da minha aldeia. Lembro-me também do apanhar dos bagos, tarefa que sobrava sempre para as crianças e que vinha acompanhada daquela velha história - uma vez um homem fez uma pipa e vinho só com bagos... - e nós, os mais pequenos, lá tínhamos que curvar as costas. A azáfama dos tempos passados, hoje, é mais suave. No Minho as vinhas são mais baixas e já escasseiam as latadas, uveiras e árvores de vinho que povoaram todo o Entre Douro e Minho até aos inícios do século XXI; os tractores substituíram os carros de bois e os cestos são agora de plástico e muito mais leves. Também já são poucos os que fazem o vinho no seu próprio lagar, preferindo a entrega das uvas na Cooperativa. E será que ainda se apanham os bagos que caem ao chão? Mas, tal como no passado, o vinho continua a estar na...