O pão do Minho
Quando falamos de pão, temos,
necessariamente, que falar daquele que tradicionalmente era consumido pelos
mais pobres, a broa, e o que era apenas reservado para os que tinham mais
posses, o pão de trigo.
Hoje, já não há este tipo de
distinção social. Mas num passado não muito distante, e desde tempos remotos, a
sociedade estava dividida em classes e o que se punha na mesa revelava a
condição social de cada um.
O trigo era, entre todos, o
cereal mais caro dando origem a um pão branco e, se bem peneirado, a um pão que
se associava quase que a um bolo. Era considerado pelos cânones médicos
nutricionalmente equilibrado. No Minho chamam-lhe, desde tempos antigos, rosca
ou regueifa. Era este o pão quotidiano dos mais ricos e o pão festivo dos remediados.
Com centeio e milho alvo (ou
miúdo) fazia-se a broa, um pão mais acerbo, considerado de mais difícil
digestão e menos nutritivo. Em regiões de maior altitude, com terras mais
pobres e clima mais agreste, cultivava-se apenas o centeio e era com ele que o
pão era confeccionado.
Por estas razões, o mais habitual
entre o povo e a burguesia era este pão de segunda qualidade, feito com milho
alvo e centeio ou só com este último. Por isso, havia um provérbio que dizia
que os minhotos comiam pão de passarinho, isto é, pão feito com milho alvo, por
ser um cereal muito pequeno, «do tamanho de missangas», apto para os pássaros (ver fotos acima).
A Chegada do milho maís
Depois do século XVI chega ao
Minho, vindo da América do Sul, o milho maís que lentamente vai ocupar todas as
terras regadias, deixando de se cultivar o milho alvo. A broa passa agora a
fazer-se preferencialmente com centeio e milho maís. O milho alvo, diziam os
historiadores, deixou de se produzir.
Será que foi assim?
O que temos vindo a concluir é
que não foi bem assim. A análise de outras fontes históricas permite-nos
concluir que o milho alvo persistiu na paisagem. Foi sendo cada vez menos
cultivado, é certo, mas a broa de milho alvo continuou a ser apreciada. Deixou, contudo, de ser um pão quotidiano
para se transformar numa presença alimentar festiva. Era considerado mais leve
e nutritivo e, por isso, reservado para momentos especiais, como o Natal, e
para dar às parturientes.
A persistência do milho alvo
E foi assim que, falando com as
populações, fomos descobrindo várias receitas desta broa de milho alvo que teimou
em persistir na alimentação. Paralelamente também resolvemos semear o milho
alvo e o painço. Semeamo-lo na cerca do Mosteiro de Tibães e, com a preciosa
colaboração da Liliana Neves, também se semeou em terras de milho maís, na
freguesia de Sistelo, em Arcos de Valdevez. Fizemos depois o pão com a
colaboração de uma padaria de Guimarães e demo-lo a provar ao público, quer em
Tibães, quer na feira mensal de Sistelo.
Foi uma excelente experiência e
um reavivar de memórias, havendo, por isso, várias receitas deste pão que nos
foram chegando. É que de uma boa conversa vão surgindo novas ideias e as
pessoas vão-se lembrando do que ficou adormecido na voragem dos dias. Afinal,
não passou assim tanto tempo.
Falando, por exemplo, com o
Senhor João Coelho, de 78 anos, moleiro de profissão, a laborar no rio Sousa,
ficámos a saber que a broa se faz com 15% de milho miúdo, um pouco de centeio e
o resto é milho grosso. Maria Glória Machado, da freguesia de Vilela, em
Paredes, é mais precisa e fala de meia arroba de milho grosso, 1 kg de farinha
de centeio e 1 kg de milho miúdo.
Outras informações sobre o
consumo deste milho podemos encontrá-las no «Atlas do Património Imaterial de
Paredes», publicado em 2025.
Agora é só arranjar milho miúdo ou alvo! E olhem que no Minho, apesar de difícil, ainda é possível.
Bom apetite e boas fornadas!
| Eu e a Liliana Neves em Sistelo |


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