Pinheiro de Jusão
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| Capela de Pinheiro de Baixo e de Cima |
Sou natural de Pinheiros de Baixo, uma pequena aldeia da freguesia de Mangualde. Hoje, aqui de férias apetece-me escrever sobre a minha aldeia.
Pinheiro de Baixo e de Cima é terra antiga. Num olhar rápido
pelo passado e pela toponímia, três informações me vêm à memória que nos
remetem para um passado longo. Por aqui passava uma estrada romana, da qual
subsiste, ainda, um pequeno troço. Mas, há trinta anos atrás, era visível um
outro pequeníssimo troço que passava mesmo pelo meio da aldeia e que foi
destruído para se proceder à calcetagem da rua.
Existe também, mesmo junto aquela via, o topónimo de «Barreiros», que
nos leva para a existência de barro, tão importante na civilização romana e,
depois, ao longo da idade medieval e moderna. As pessoas mais antigas da aldeia
conhecem, ainda, pequenos pontos onde, hoje, é possível encontrar barro. Outro
topónimo, «orca», leva-nos claramente para um tempo ainda mais antigo, o das
comunidades pré-históricas.
Na Idade Média, por volta de 1258, está documentada a
existência de um João Fernandes, senhor que aqui possuía uma quinta e, também,
uma cavalaria, ou seja, um espaço militar de concessão régia. É por esta altura
que nos aparece o termo «Pinheiro de Jusão». E a aldeia continua a prosperar
tendo, em 1527, 15 fogos, ou seja, 15 moradas familiares. Em meados do século
XVIII, a população dividia-se já entre Pinheiro de Baixo e Pinheiro de Cima,
com a ermida de São Silvestre e Santa Eufémia construída propositadamente «entre os dois povos».
Foram tempos de crescimento!
Mas se a aldeia foi prosperando, o seu nome merece-nos alguma
reflexão. De facto, como vimos, é um nome antigo que se radica bem lá trás, nos
alvores da Idade Média. E sabermos isso
leva-nos a querer conhecer a cobertura vegetal existente na região nos últimos
mil anos. Pois bem, sabemos hoje que, por aqui, o pinheiro bravo (Pinus
Pinaster), assim como o pinheiro manso (Pinus Pinea), se encontravam dispersos
em pequenas manchas e se misturavam com algumas espécies de Quercus, destacando-se
a presença do carvalho negral (Quercus Tozza), também designado por «carvalho
pardo da Beira»; do carvalho roble ou alvarinho (Quercus Robur); do sobreiro
(Quercus Suber) e do castanheiro (Castanea sativa). Pelo meio abundavam ainda
os medronheiros, as giestas, o tojo, a torga, etc.
Ora, pelos lados da minha aldeia, deveria existir uma pequena
mancha onde o pinheiro florescia. E ficou o nome.
Mas, porque hoje a paisagem é bem diferente, predominando
essencialmente o pinheiro bravo e o maléfico e exótico eucalipto, ressalta mais
uma questão. Por que se generalizou o pinheiro, que tem um ciclo de vida, até
atingir a idade adulta, relativamente longo, cerca de 20 anos? Esta pergunta
não é de fácil resposta. Pensava eu que o interesse por esta árvore tinha
surgido apenas no século XX, quando a sua plantação se generalizou na Beira
Alta. O desenvolvimento da indústria química, que necessitava de resina, e
alguma necessidade de madeira para a construção civil, que o aumento da
população tinha impulsionado, teriam provocado esta expansão. Havia apenas
aquela excepcional plantação do pinhal de Leiria, feita pelo rei lavrador.
Mas a necessidade de semear pinheiros, observo agora, remonta
a séculos atrás. Recentemente chegou-me às mãos o registo, feito em pleno
século XVII, da sementeira de 4 alqueires de pinhões, por parte de uma
comunidade monástica feminina de Viana do Castelo. Aquelas freiras, que tinham
vastíssimas propriedades e estavam constantemente em obras de construção e
reconstrução do seu mosteiro, ao longo de mais de 200 anos, mandaram semear
aquela quantidade de pinheiros para, provavelmente, terem garantida a futura
necessidade de madeira de pinho.
E assim a história se vai fazendo. Com interrogações
constantes e com o passado que nos vai ajudando o compreender o presente. E
Pinheiro de Jusão é bem testemunho disso!
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| via romana dos Barreiros, Pinheiro de Baixo, Mangualde |



