Do caldo à canja de galinha
Já todos sabemos que a palavra canja deriva do
tâmil e malalaio, Kanje ou kanji, o quer dizer que constitui uma aculturação de
um caldo que os portugueses encontraram na Ásia no século XVI. Reconheceram-lhe
virtudes medicinais e, por esse facto, apoderaram-se do nome e da receita.
Encontramos-lhe o rasto em Garcia da Orta (cerca de
1500-1568), que, logo no seu Colóquio dos Simples e Drogas e Coisas
Medicinais da Índia, editado em Goa, em 1563, nos fala desta iguaria.
Um caldo de arroz, sem sal, muito cozido até se desfazer, resultando numa água
grossa. De facto, já desde os tempos medievais que na Europa o arroz era
reconhecido pelas suas características curativas em algumas doenças, sendo
considerado de grande nutrição, receitado para as tosses, para os tuberculosos
(ou tísicos, como lhes chamavam), diarreias e disenterias. Esta nova receita
vai por isso fazer algum sucesso.
Caldo de galinha
Só que acima do arroz estava a galinha, que se usava
sempre que havia uma doença a bater à porta. Com ela faziam-se vários tipos de
caldos. Recuamos até ao século XVII, ao Arte de cozinha ou methodo de fazer
guizados, do Arquivo Distrital de Braga, onde localizamos as receitas de caldo esforçado, caldo muito esforçado,
caldo muito substancial para pregadores, apisto, galinha destilada. Todos
com a galinha como ingrediente principal. Por esta altura encontra-se também a
notícia de um cozinheiro que, pelos idos de 1642, fez um caldo de galinha, onde
adicionou coentros e açafrão e, por fim, no momento de ir para mesa, juntou-lhe
duas gemas de ovos para que o caldo ficasse dourado. João Pedro Gomes, num
atento estudo sobre os caldos terapêuticos dos tempos mais antigos, dá-nos
conta da utilização das gemas nos ditos caldos em contexto hospitalar.
Nos inícios do século XVIII, o cozinheiro Francisco
Borges Henriques também nos dá a sua receita de caldo de galinha para doentes, onde, para além da galinha, junta
alguns grãos-de-bico, cebola, uma «migalha» de toucinho, umas «pedrinhas» de
sal e uma «pinga» de vinagre. Pela mesma altura, o médico Manuel da
Silva Leitão ensina-nos a fazer um verdadeiro caldo de galinha. Para tal devia
ter-se uma galinha nova, ainda sem por ovos, carnuda, bem nutrida e abatida em
24 horas. Cozia em água abundante, numa panela grande, durante duas horas,
fervendo devagar. Entre os vários ingredientes sugere apenas que se lhe
adicione um pouco de sal e açafrão, uma colher de grãos-de-bico e uns «olhos de
salsa».
Como vemos, os
ingredientes vão variando, sem se verificar a presença do arroz. A canja,
quer dizer, a água de arroz, já se consome para algumas maleitas, mas ainda não
se mistura nos caldos de galinha.
A canja
Vamos encontrar esta realidade nos finais do século
XIX, quando numa receita de caldo de galinha da obra o “Cozinheiro
indispensável” se faz a seguinte nota: “O caldo de galinha dá-se aos doentes
principalmente durante a convalescença, e conhece-se então pela denominação de canja”. Logo depois, em 1904, Carlos Bento
da Maia corrobora da mesma opinião e conclui que, depois de cozida a galinha, o
caldo servia para preparar uma sopa de arroz, ou seja, uma canja de galinha.
Seguindo agora o estudo de Maria José Araújo,
publicado pelo Diaita, em 2022, verifica-se que só em 1928 é que se assume, em
definitivo, a canja de galinha na obra Culinária
de António Maria Oliveira Belo. Todavia, o título principal ainda é sopa de galinha à portuguesa remetendo-se
a palavra canja para uns parêntesis
no final. A receita é agora bastante simples: galinha, água, sal, ovos e arroz.
E lá estão os ovos, tal como no século XVII, cozidos ou crus, devidamente
desfeitos para acentuar a cor dourada da sopa.
E o que temos agora?
Uma sopa mais simples, preferencialmente com os miúdos e com massinhas, uma
novidade mais recente, dos anos 70/80. Já quase não usamos arroz, mas
continuamos a preferi-la quando estamos doentes. Haverá sopa mais aconchegante?

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