Camilo, Braga e as frigideiras
Já todos sabemos que Camilo Castelo-Branco
teve fama de bon vivant. Uma vida repleta de aventuras, com amores
proibidos à mistura e, naturalmente, de boas comidas. Não pretendo neste texto
esmiuçar as suas preferências alimentares porque outros já o fizeram muito bem.
Tão pouco pretendo abordar a sua relação com a cidade dos Arcebispos, também
largamente estudada. Todavia, do que já li sobre ele e sobre a mesa camiliana
sobressai-me um tema que ainda não vi desenvolvido e que se resume ao gosto que
parece demonstrar por uma comida típica de Braga – as frigideiras.
Sim, Camilo parece que gostava muito de
frigideiras. Esse gosto perpassa pela sua obra e pelos seus personagens. Se não
vejamos: n’a Sereia (1865), pela voz de um monge beneditino, diz-se
arrenegado pelas ditas anotando a preferência do D. Abade de Tibães. Ainda
neste livro volta a referir o gosto desenfreado dos beneditinos por frigideiras;
na Bruxa de Monte Córdova (1867), outro frade beneditino «recebia
semanalmente da sua mãe uma canastra recheada de garrafas de óptimo Douro, de
fiambre de Melgaço, de frigideiras bracarenses, de lampreias e salmões de Viana
no tempo»; no Mosaico e Silva (1868) fala-nos, aqui na primeira pessoa,
de «bifes de cebolada, frigideiras de Braga e pastéis de Guimarães»; no Bom
Jesus do Monte (1864) não deixa de referir «uma indigestão de frigideiras!»,
tal era o gosto pelas ditas; voltamos a encontrá-las nos gostos do marido de
Tibúrcia em Maria Moisés (1876-1877); finalmente, no livro Eusébio
Macário (1879) elogia vários produtos da região, o «belo pêssego de
Amarante, as morcelas de Guimarães e pastéis da Joaninha, as frigideiras de
Braga, e o vinho verde de Basto».
Todas estas notícias e outras, que por
agora nos escapam, trazem as frigideiras para a mesa camiliana. Nas suas vindas
a Braga não deixava, com certeza, de se refastelar com elas e também não seria
muito complicado mandá-las ir de Braga até Seide.
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| Fonte: https://vive.eixoatlantico.com/ |
Por estes anos as frigideiras são famosas
em Braga e com uma história de vários séculos. Em 1895 existe, inclusive, um
jornal humorístico denominado a Frigideira, onde entre outras notícias
destacamos este pequeno poema, que as coloca no centro da mesa bracarense.
Há
bifes, peixe, vitella
Bacalhau e carne assada
Queijo da serra da Estrella
Fructas, doces, marmellada
Há carneiro com ervilhas
Bacalhau à espanholeira
Porém, nada se assimilha
Ao gosto da frigideira.
Mas
de onde vêm as frigideiras? Como seriam confecionadas no passado? No meu livro Viúvas
de Braga e outros doces do Convento dos Remédios apresento as frigideiras
doces compradas pelos beneditinos a partir de 1752. Eram já feitas com massa
folhada, aromatizadas com canela e água de flor, recheadas com fruta ou massa
de pão leve e polvilhadas com açúcar. Concluo nessa altura que o recheio de
carne poderá ter surgido depois. Pois estava enganada. Em 1672 observo os
frades do Pópulo a gastarem 700 reis em «lombos e línguas de vaca que se
fizerão em huas frigideiras»; Compra que se repete nos anos seguintes. Um
século depois continuam a comprar frigideiras de línguas, de bacalhau e de
carne picada.
Contas feitas, a frigideira, esse pastel
do tamanho de uma frigideira, feito de massa folhada, e com os recheios mais
diversos, doces e salgados, anda por cá há vários séculos, acabando, no século
XX, a ser comercializada com um tamanho mais pequeno e apenas com o recheio de
carne picada. É claro que os séculos e o saber fazer fizeram deste pastel uma
pequena delícia com que ainda hoje nos deleitamos. E Camilo, apreciador de uma boa
comida não lhe seria indiferente. E nós também não. Que continuem, pois, as
frigideiras a deliciarem-nos pelos séculos seguintes!


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