Pêra passa de São Bartolomeu

 


    Este Natal comprei aqui em Braga a tradicional pêra passa da região da Beira. É uma pêra pequena, doce e aromática, entre as muitas variedades de pêras miúdas, que também existem noutras regiões, e que por essa razão se adaptam bem à secagem. Esta era a única forma de se aproveitarem e de se prolongar o seu sabor pelo Inverno adentro, porque são variedades de durabilidade muito curta. Lembro-me de as apanhar aos cestos para consumir em fresco, numa abundância que se estendia aos vizinhos e aos animais de casa para que não se estragassem.

    Chamam-lhe por aí pêra passa de Viseu. Mas não é. É de toda a Beira Alta, pois por toda a região, especialmente em alguns recantos mais frescos, florescem estas pereiras de São Bartolomeu, cujo fruto amadurece precisamente nesta altura, isto é, por volta do Dia de São Bartolmeu, que se comemora a 24 de Agosto. A denominação de Viseu deve-se ao facto da sua comercialização acontecer principalmente a partir desta cidade e, em especial, no tempo da feira franca ou de São Mateus. Uma feira que se realiza desde a Idade Média, durante um mês, e que até há poucos anos atrás, acontecia entre Setembro e Outubro, iniciando-se por volta do dia de São Mateus (21 Setembro).

    Pensava eu que esta história e esta tradição, num passado mais distante, estava confinada à região Beirã. Surpreendi-me, por isso, quando, numa investigação recente sobre o Natal em Braga, observei, no século XIX, a venda da chamada «pêra passa de Viseu» na capital minhota. Uma iguaria que era apreciada também na mesa natalícia dos minhotos.

Jornal A Correspondência do Norte, 22 Dez.1880

    Esta presença de um sabor beirão levou-me a um olhar rápido sobre a forma como é preparada. A apanha decorre nas três últimas semanas de Agosto. Depois são descascadas à mão e são colocadas nos secadores, que tradicionalmente eram recipientes de madeira revestidos por uma camada fina de caruma de pinheiro, árvore abundante por estas bandas. O sol dos últimos dias de Agosto e de Setembro, é ainda forte e faz o seu trabalho de secagem durante cerca de uma semana. Depois de secas são embarreladas em cabazes que se abafam com uma manta, operação que é feita na hora mais quente do dia, ficando assim um ou dois dias à sombra. O calor e a humidade fazem amolecer a polpa do fruto facilitando o processo seguinte: a espalma. As pêras são espalmadas, uma a uma, com muito cuidado, usando uma espalmadeira, um objecto feito por duas peças de madeira articuladas com uma tira de couro. Seguidamente ainda vão, mais um ou dois dias, ao sol para acabarem de secar.

    É claro que, agora, já há quem faça este trabalho de forma mais mecanizada, com uma secagem mais cuidada e protegida das agressões exteriores, especialmente insectos. Todavia, o trabalho manual na apanha e na descasca é fundamental para a apresentação final.

    E aí estão elas cada vez mais presentes à mesa, cheias de sabor. Um fruto que no passado se secava por necessidade alimentar, para não se desperdiçarem recursos, revelando-se um bom aporte energético ao longo do Inverno, ao lado dos figos, das ameixas e das uvas.  Um dos produtos tradicionais que está a renascer sendo cada vez mais valorizado e apreciado.

    São estas maravilhas que nos fazem pensar que o Interior ainda vale a pena!



Comentários

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  2. Em Sameice, Seia chamam-se "presuntinhos". Também já vi à venda numa loja da Baixa de Lisboa.

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