As «batatas da escola» do Caneiro
Um dos dias deste Verão almocei no «Caneiro»
em Arco de Baúlhe. O meu livro «Entre a mesa e a botica: os saberes e os sabores dos monges de Basto: 1626-1834», editado
este ano pela Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, levou-me para aquelas terras e
deixei-me perder por ali. O património arquitectónico, as paisagens e a
gastronomia daquela região minhota, quase a raiar o Marão, valem bem um passeio
de fim de semana.
O «Caneiro» foi uma escolha natural
porque passei a noite num moinho no mesmo local, também pertencente à família.
E já era antiga a vontade de ir conhecer um dos melhores restaurantes daquela
região.
O restaurante não precisa de apresentação porque é demais conhecido e apreciado. Tem um longo historial de servir boa comida, apreciada e publicitada por muitos.
Por tudo isto, a minha experiência só
podia ter sido excelente. Perante uma carta recheada de iguarias optámos pelo
clássico arroz de polvo e pelas “batatas da escola”, aquela comida tradicional
que fez história na região quando, no século XX, as batatas se tornaram
quotidianas nas mesas dos Cabeceirenses.
É uma comida simples constituída por
uma boa cebolada, cozinhada com pedaços de carne de porco, que existiam na
salgadeira ou no fumeiro de cada família, e que podiam ser chouriço, presunto,
salpicão ou toucinho. Depois de bem apurada juntavam-se batatas fritas
previamente cortadas às rodelas finas e fritas no bom azeite da região. É claro que era um prato onde abundavam as
batatas e as cebolas escasseando a carne que, às vezes, podia ser apenas um
pouco de unto para dar sabor. Fazem lembrar as «batatas solteiras», outra das
comidas que também se generalizou no Interior transmontano e que não era mais
do que batatas guisadas apenas com um pouco de gordura. Ou, andando para Sul, recordam
a «açorda de assobio», feita apenas com pão, gordura e bocadinhos minúsculos de
carne de porco que, quando algum comensal tinha a sorte de lhe cair na boca
dava um assobio. Tudo comidas da chamada
gastronomia da fome onde a arte e o engenho eram ingredientes fundamentais.
Esta comida servia de refeição para
as crianças levarem para a escola, mas também para os trabalhadores do campo. Comidas
simples que lembram os tempos de escassez e de fome, mas que mesmo assim se
cozinhavam com todo o esmero, gravitando à volta de algum sabor que um pouco de
carne de porco lhe pudesse dar para reconfortarem o corpo e darem alguma
energia.
É claro que hoje, em tempos de abundância,
servem-se com um acompanhamento de luxo: pequenos nacos de vitela assados na
brasa.
Mas o que importa é que o sabor
original continua presente. A inconfundível carne de porco, que Francisco da
Fonseca Henriques, em 1721, dizia que era a única que dava «sabor aos comeres»,
contínua a ser o grande aporte de paladar e requinte deste prato.
E é destas pequenas maravilhas que
vive hoje muita da nossa melhor gastronomia. Uma gastronomia da fome valorizada
em tempos de abundância!



