Doce de cabaço

 

Cabaços fotografados no Restaurante
Cor de Tangerina, Guimarães


Um destes dias um conterrâneo presenteou-me com dois cabaços. Para quem não sabe, porque esta planta é cada vez mais rara, o «cabaço» (Lagenaria vulgaris var. clavata) é uma abóbora de cor verde e carne branca apresentando-se num formato alongado, podendo chegar até um metro de comprimento. Aqui no Minho chamam-lhe calondro, abóbora carneira ou abóbora porqueira. Não tem nada a ver com a outra abóbora (cucurbita pepo L.) de cor mais ou menos amarela, que chegou a Portugal, vinda da América, depois do século XVI. O «cabaço», como os beirões o denominam, já está por cá há mais de dois mil anos, tendo sido comum na cozinha romana. Também não se confunda com a «cabaça» (lagenaria siceraria (Molina) Standl.) conhecida pela sua casca dura e impermeável após a secagem, prestando-se, nos tempos mais antigos, para ser utilizada como recipiente de água ou vinho que se levava para o campo. Os pastores e os caminhantes usavam-na com regularidade. Por essa razão é ainda hoje um dos símbolos dos peregrinos de Santiago.

Vamos então conhecer esta planta tão tradicional da nossa alimentação e hoje já quase esquecida. Sendo uma variedade de abóbora tão antiga, os nossos antepassados, e à falta de outra, aprenderam a cozinhá-la cozida ou guisada e a utilizá-la para dar aos animais de casa, especialmente aos porcos, daí também se chamar abóbora porqueira. Todavia, prestava-se também a outras utilizações pois a sua casca dura, muito parecida com a cabaça, motivava os agricultores a utilizá-la seca para guardar sementes. No entanto, era na mesa que brilhava e fazia sucesso. Em 1721, o médico real Francisco da Fonseca Henriques, quando fala deste fruto, diz-nos que «he a que tem forma comprida, e a que ordinariamente se usa nas mesas». O que nos faz concluir que era usual utilizá-la na cozinha e que a outra, a que tinha vindo da América, ainda era pouco utilizada.  E este uso na mesa era principalmente, tal como ainda hoje, em doce.

Se olharem bem o bolo-rei,  verificarão que entre os frutos que o decoram há uns pedaços de fruta, branca, verde e vermelha, que são a polpa branca do cabaço, depois de cristalizada, agora transformados noutra cor por força da adição de um corante. Era também chamada «abóbora coberta», realidade que já encontro nas práticas conventuais desde o século XVII. Mas, para além disso fazia-se também em doce de calda. Quando olhamos um dos quadros da Josefa de Óbidos (natureza morta com doces e barros), pintado em 1676, e observamos uma taça com doce branco, que parece chila, é deste doce de abóbora que se trata. A chila, também vinda da América, nesta altura ainda não estava muito divulgada.


Para se preparar utilizava-se um esbichador (ao lado) que ajudava a retirar a polpa em pequenos pedaços que depois se cozinhavam com açúcar. Este pequeno objecto, que ainda hoje se usa, facilita bastante o trabalho já que a casca é bastante dura.

Foi desta maneira que eu fiz o meu doce de cabaço. Gostava de vos dar a receita, mas não a encontro registada em nenhum livro de cozinha beirã. No entanto, posso explicar que o meu doce foi feito com metade do açúcar do peso do cabaço, mais umas cascas de limão. Espremi bem a polpa, levei ao lume e deixei ferver até atingir alguma consistência. Passei para frascos e esterilizei-os, cheios de doce e devidamente tampados, durante 20 minutos.

Agora é saborear e, para a próxima Primavera, não deixem morrer este sabor e semeiem-no no vosso quintal! Está carregadinho de história!

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