O Arroz de sarrabulho à moda de Ponte de Lima
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| Fonte: https://www.gastronomiaevinhos.pt/ |
Comer
um bom prato de sarrabulho, acompanhado com rojões, tripas e farinhotes ou
belouras, é uma verdadeira e única experiência gastronómica, nada comparável a
outras comidas, também com algumas características peculiares. É entrar numa
outra realidade, penetrar no Minho profundo, nas entranhas da terra e sentir a
capacidade que os minhotos desenvolveram ao longo de séculos, transformando
alimentos secundários, meros desperdícios, numa iguaria estranha, complexa,
rústica e, atrevo-me a dizer, deliciosa.
Chama-se
sarrabulho, mas também pode chamar-se verde, bazulaque, sarapatel, mondongo…,
receitas onde o sangue e as vísceras se fundem dando origem a sabores complexos
que primeiro se estranha e depois se entranha.
Falando
especificamente do sarrabulho na região do Minho, sabemos que se encontra
referido em fontes documentais, pelos menos desde o século XVII, mas virá, com
toda a certeza, de muito mais atrás. Na sua composição observa-se o uso das
vísceras e sangue do porco, juntando-lhe a carne de vaca ou galinha, animais
bastante presentes na paisagem minhota. O acompanhamento vai variando. Na
região de Braga prefere-se o pão, em zonas mais pobres, como Barcelos, Vizela e
Sousa, opta-se pela farinha e o grão partido do milho, em Ponte de Lima dá-se
preferência ao arroz.
A tradição do sarrabulho em Ponte de Lima
E por
aqui nos ficamos, no arroz de sarrabulho à moda de Ponte de Lima.
Tradicionalmente a origem desta preparação culinária está atribuída à ação da
célebre Clara Penha (1836-1924), uma cozinheira
«de mão cheia» que, nas primeiras décadas de 1900, se dedicou a servir o arroz
de sarrabulho aos clientes na pensão que geria no centro da vila. Assim se
tornou pioneira da restauração contemporânea deixando testemunho a uma
sobrinha, que lhe seguiu o rasto, e a todas as outras casas de pasto e
restaurantes, que foram emergindo na vila ao longo do século XX.
Todavia, sabe-se hoje que este modo de cozinhar o
sarrabulho é muito mais antigo. Já em meados do século XVIII as freiras do
convento de Vale de Pereiras o confecionavam desta maneira. Uma comida que faziam
em dias de festa para a comunidade monástica. No século XIX observa-se que,
também, as casas nobres da região o registam nos seus livros de receitas. São
exemplo o Paço de Bertiandos e a família Coelho Villasboas, detentora da Casa
do Cruzeiro.
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| Fonte: https://amagazinept.org |
A especificidade do arroz
A particularidade da presença do arroz, um cereal
já conhecido desde a idade média e cada vez mais consumido a partir do século
XVII, quando os portugueses o passaram a produzir no Brasil, dá-lhe o atributo
de comida festiva e das mesas das famílias mais ricas, as únicas com posses
para comprar este cereal.
No século XIX Portugal começa também a produzir
arroz, acentuando-se a popularização do seu consumo. Surgem inclusive no
mercado diferentes qualidades de arroz, um mais caro do que o outro, para
senhores e criados.
Clara Penha nasceu e cresceu neste enquadramento
económico e social, recebendo dos seus ancestrais esta tradição alimentar que,
ao longo do século XIX, se foi tornando cada vez mais popular. Uma tradição que
soube divulgar e eternizar transformando-se, hoje, num convite turístico para quem se quiser
aventurar até ao Alto Minho e se deliciar com o que as gentes e as paisagens da
Ribeira Lima lhes pode oferecer.



