Aqui há cacos!

 

Cacos, fabricados pelo Instituto
Monsenhor Airosa, Braga

Começam a surgir as padarias que fazem pão com variedades tradicionais de trigo e com massa mãe. São as chamadas padarias artesanais. Um pão de fermentação lenta feito com trigo mole, sendo de destacar o trigo barbela, que anda por cá há muitos séculos. Trata-se de um trigo mole com baixo teor de glúten e rico em nutrientes. Também o trigo tremês era bastante consumido e, por curiosidade, Francisco Borges Henriques, no século XVIII, recomenda que é o ideal para fazer a massa das empadas.

As obreias na doçaria

Ora, se se fazia com estes cereais o pão, também seria com eles que se faziam as hóstias. E é delas que vamos falar.

 Hóstias ou obreias, são pequenos discos delgados de massa de farinha sem fermento, que na Igreja Católica são consagradas durante a missa e se tornam o Corpo de Cristo, oferecido aos fiéis durante a comunhão.
    Todavia, são também um ingrediente da nossa cozinha tradicional. A sua delicadeza e textura fina muito cedo atraíram as doceiras e as madres conserveiras para envolver certos doces. Desde o livro de Cozinha da Infanta D. Maria, quer dizer, desde o século XV/XVI, que as observamos a servirem de base aos massapães. Um doce feito de amêndoa e açúcar que vai a cozer ao forno sobre obreias, “cada uma o seu”.  Ao longo dos séculos, e com uma certa arte doceira muito centrada nos conventos, onde porventura também se faziam as hóstias, a obreia foi-se alargando a muitos outros doces. Naquele mesmo tratado de cozinha observamos que os canudos de ovos eram feitos com uma massa frita e depois recheados com ovos-moles, e, já no século XVII, em outras fontes documentais, percebe-se que os ovos-moles eram apresentados em tigelinhas e os celestes iam a cozer ao forno sem qualquer protecção. Esta realidade nos inícios do século XVIII já começa a mudar. A massa frita e as tigelinhas são substituídas por obreias. Francisco Borges Henriques, para além dos massapães, também já se aventura em outras receitas, como um bolo em camadas de obreia com recheio de ovos, manteiga e massa de pão ou uns ovos-moles brancos para comer logo, onde refere que se podem deitar “em tigella, ou pratos com canella por sima” ou “em prato com obreias doces feitas em canudo”.

Chegamos ao século XIX com inúmeros doces envolvidos em obreia, sendo tradicionais em Braga, para além dos massapães, os celestes e o chamado doce fino, ou seja, pequenos canudos ou rissóis de obreia recheados com ovos-moles.


Doce Fino. Foto: Mário Brandão

O fabrico de hóstias em Braga

Mas sendo Braga a Roma de Portugal sabemos que aqui existe, também, uma verdadeira indústria de fabrico de hóstia. E vai daí, em 2016, um do seus principais fabricantes, o Instituto Monsenhor Airosa, em Braga, resolveu começar a comercializar os restos que eram rejeitados e que se davam aos vizinhos ou às crianças mais próximas. E foi assim que nasceram os “cacos”, que hoje se vendem por todas as pastelarias da cidade, com o epíteto de “Aqui há cacos!”. Um “doce” que não é doce. Uma iguaria que vai bem, simples, com café ou chá. E dizem alguns especialistas que também vai muito bem com vinho de missa, uma bebida da qual nada sei, mas que me deixa curiosa…

Eu gosto muito de os acompanhar com um café! Experimentem!

Cacos, vendidos na Casa das Velas, em Braga



Mensagens populares