Rebuçados do Lausperene
Nestes dias de Quaresma,
Braga brinda-nos, desde 1710, com o tradicional Lausperene instituído pelo
arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles. Uma adoração eucarística especial, muito
ao modo daquele Arcebispo, que, com o passar do tempo, acabou por atrair
vendedoras de doces às portas das igrejas dando-lhe um ar festivo. É que no
interior da igreja é também em festa que o Senhor é recebido, sobressaindo a
tribuna, as porcelanas, os damascos, as toalhas ricamente adornadas, os
candelabros em prata ou ouro e inúmeros ramos de flores. Festa no interior e
festa no exterior. Um convívio saudável e harmonioso entre o sagrado e o
profano, sendo o doce, que num passado distante tinha uma associação directa
com a saúde e era permitido em tempos de jejum quaresmal, um elo de sacralidade
que se associa ao tempo festivo que o Lausperene anuncia.
Hoje são já poucas as vendedeiras dos «rebuçados do
Senhor» e, as que existem, fazem-no apenas por tradição e não por daí obterem
grande lucro. Noutros tempos era uma forma de subsistência para mulheres que
faziam profissão da venda ambulante de vários doces por festas e romarias.
São
uns rebuçados feitos de uma maneira muito simples. Água e açúcar amarelo a
cozer, até atingir o ponto de caramelo leve. Verte-se de seguida para uma
superfície lisa, de preferência de pedra, deixa-se solidificar e corta-se em
pedaços. Depois é só embrulhar em papeis coloridos para dar um tom mais festivo
no momento da venda.
Não
sabemos quando começou esta tradição, mas sabemos que o hábito de comer
caramelo está documentado em Braga já no século XVII. No meu livro «Viúvas de
Braga», no capítulo referente aos doces de açúcar, faço alusão a este doce, que
era comprado ou oferecido a quem estava doente, pois tinha funções medicinais
particularmente para as doenças do peito. Ora, esta função medicinal contribuiu
para a sua popularização, não só em Braga mas também noutras localidades,
chegando até nós, por exemplo, os rebuçados da Régua e os dos Arcos de Valdevez,
feitos da mesma maneira.
Na
primeira metade do século XVIII não se denominavam ainda por rebuçados. Esta
palavra significava apenas «cobrir parte do rosto com uma capa», ou, simplesmente, «ocultar» ou «disfarçar». Só nos finais do século, em 1789, o conhecido
dicionário de Morais lhe vai juntar a definição de «pellotas de açúcar em ponto
de quebrar que se trazem na boca». Sim, traziam-se na boca e deixavam-se
escorrer lentamente pela garganta para tratar as constipações e a tosse. Tal
como hoje ainda fazemos com os rebuçados Dr. Bayard, os de avenca e outros congéneres.
Homenagem,
pois, aos «rebuçados do Senhor», que, tal como o culto eucarístico, vieram para
alívio das dores físicas e espirituais. E saudemos a rebuçadeiras que ainda
resistem. Que o seu labor continue por muitos anos a adoçar a boca dos fiéis!

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